O Lado Mental do Tênis- Inspirado por Timothy Galwell- Parte 1

O Lado Mental do Tênis- Inspirado por Timothy Galwell- Parte 1

O tênis é um esporte extremamente mental. Percebemos isso quando vemos os melhores do mundo no circuito ATP onde todos Top 100 jogam demais entre eles, mas apenas alguns se destacam entre os Top 10. Muitos atribuem este destaque ao lado mental do jogo, onde reside o grande diferencial dos gigantes comparados aos excelentes.  

Ser forte mentalmente, não “tremer” ou“pipocar”, são jargões que ouvimos sempre no nosso esporte.

Um dos livros mais importantes sobre este lado mental do esporte se chama “JOGO INTERIOR DO TÊNIS”- Inner Game of Tennis,  escrito por Tim Gallwey no Estados Unidos. Gallwey foi capitão da equipe de tênis da Harvard University em 1960 e, se tornou professor de tênis profissional na Califórnia após se formar. Ele observou a dificuldade de aprendizado dos alunos no método tradicional, não por falta de competência, mas especialmente por ansiedade, insegurança e auto-crítica.

Através desta observação, ele desenvolveu o Inner Game, uma metodologia de aprendizado baseada no autoconhecimento, autoconfiança e experimentação, desafiando os hábitos da mente que inibem a excelência na performance.

No início dos anos 70 dando aula de tênis para um executivo da AT&T, foi convidado a compartilhar esse método de excelência no mundo corporativo, tornando-se uma referência na área e considerado o criador do conceito de coaching.

Nos próximos posts, vamos falar um pouco sobre este livro e nos aprofundar um pouco mais sobre o o jogo mental dentro do jogo de tênis pela ótica do Grande Timothy Gallwey

Reflexões sobre o lado mental do tênis

Todo jogo  de tênis é composto de duas partes, um jogo externo e um interno. O jogo externo é jogado contra um oponente externo para superar obstáculos externos e atingir um objetivo externo.

A tese deste livro é que nem o domínio nem a satisfação podem ser encontrados em jogar qualquer jogo sem dar alguma atenção às habilidades relativamente negligenciadas do jogo interno.

Este é o jogo que ocorre na mente do jogador, e é jogado contra obstáculos como lapsos de concentração, nervosismo, insegurança e auto-crítica. Em suma, é jogado para superar todos os hábitos mentais que inibem a excelência no desempenho.

O jogador do jogo interno passa a valorizar a arte da concentração relaxada acima de todas as outras habilidades; ele descobre uma base verdadeira para a autoconfiança; e ele aprende que o segredo para vencer qualquer jogo está em não se esforçar muito.

Relatos de Timothy Gallwey:

A reclamação mais comum de tenistas competitivos é: “Não é que eu não sei o que fazer, é que não faço o que sei!”

Após muitos anos de experiência, comecei a entender que os bons profissionais e estudantes de tênis deveriam aprender:

– Que as imagens são melhores do que as palavras!

– Mostrar é mais eficiente do que falar.

– Instruções demais são piores que nenhuma instrução.

Uma pergunta me deixou intrigado: o que há de errado em tentar? O que realmente significa “tentar demais”?

Um jogador num estado normal de jogo

Um jogador neste estado sabe para onde quer que a bola vá, mas não precisa “se esforçar” para manda-la para lá. Simplesmente parece acontecer – e freqüentemente com mais precisão do que ele poderia esperar. O jogador parece estar imerso em um fluxo de ação que requer sua energia, mas resulta em maior poder e precisão.

Esta “boa fase momentanea” geralmente se mantém até que ele comece a pensar conscientemente sobre ela e seu foco começa a ser tentar mantê-la. Assim que ele tenta exercer este controle, esta boa fase some.

Na próxima vez que seu adversário estiver tendo uma sequência incrível de pontos bem jogados (a gente se depara sempre com estas situações), simplesmente pergunte a ele enquanto vocês trocam de lado: “O que você está fazendo de tão diferente que seu forehand está tão bom hoje?” Se ele morder a isca – e a maior parte das pessoas fazem isso – e começar a pensar e refletir em como está se equilibrando, contando como ele realmente está tentando pegar a bola na subida com o pulso firme,  existe uma grande chace desta “boa fase” acabar. Ele perderá o tempo e a fluidez ao tentar repetir o que acabou de dizer pra você.

O backhand pode ser usado como arma apenas na quadra de tênis, mas a habilidade de dominar a arte da concentração sem pressão é aplicável em qualquer coisa situação de vida!

Carlos Omaki Tenis- Jogo Interior do Tênis

A descoberta dos dois seres- Ser 1 e Ser 2

A chave para a prática do tênis em alto nível — ou para qualquer outra atividade que pode ser melhorada — está em desenvolver o relacionamento entre o consciente, que é o Ser 1 (mais pensador), e as capacidades naturais do Ser 2 (mais instintivo).

Dentro de cada jogador, o tipo de relacionamento que existe entre o Ser 1 e o Ser 2 é o fator principal para determinar a capacidade de alguém de transformar seu conhecimento teórico da técnica em ação eficaz.

Em outras palavras, a chave para um tênis melhor  está em melhorar o relacionamento entre o Ser 1 que é altamente consciente e o Ser 2, que possui características altamente instintivas e naturais.

Uma aluna estava começando a sentir a diferença entre “dar o melhor” usando a energia do Ser 1 e “esforço”, a energia usada pelo Ser 2, para fazer concluir seus treinos.

Durante a última troca de bolas, seu Ser 1 estava totalmente ocupada em observar as costuras da bola. Como resultado, seu Ser 2 foi capaz de seu realizar seus golpes sem problemas e provou ser muito bom nisso. O interessante é que até o seu Ser 1 estava começando a reconhecer os talentos do Ser 2. Esta aluna finalmente esta conseguindo fazer os seus dois seres internos trabalharem juntos.

 

Ter postura mental no tênis exige o aprendizado de várias habilidades internas:

1)  Aprender como visualizar a imagem mais clara possível dos resultados e objetivos desejados;

2)  Aprender como confiar no Ser 2 (auto-confiança) para ter a melhor performance possível e aprender com os sucessos e fracassos;

3)  Aprender a observar “sem julgar” – isto é, ver o que está acontecendo, em vez de apenas perceber o quão bem ou mal está acontecendo.

Carlos Omaki Tenis Competitivo- Timothy Galwell- Frases

Silenciando o Ser 1 e o Processo de Julgamento

Em suma, “entender o contexto mental do todo” requer desacelerar a mente. Acalmar a mente significa diminuir todas as seguintes ações: pensar, calcular, julgar, preocupar, temer, esperar, tentar, lamentar, controlar, tremer ou distrair.

A mente está quieta quando está totalmente aqui e agora em perfeita unidade com a ação e o “ator”. O objetivo do Jogo Interior é aumentar a frequência e a duração desses momentos, aquietando a mente de maneira contínua e capacitando uma expansão contínua de nossa habilidade de aprender e performar.

Para a maioria de nós, aquietar a mente é um processo gradual que envolve o aprendizado de várias habilidades internas. Essas habilidades são na verdade artes de esquecer hábitos mentais adquiridos desde que éramos crianças.

A primeira habilidade a aprender é a arte de abandonar a inclinação humana de julgar a nós mesmos e nosso desempenho como bons ou ruins. Abandonar o processo de julgamento é uma chave básica para o Jogo Interior. Quando desaprendemos a julgar, é possível chegar a um nível de jogo espontâneo e altamente focado.

No entanto abandonar os julgamentos não significa ignorar os erros. Significa simplesmente ver os eventos como eles são e não adicionar opinões a eles.

Exemplo: Através de um approach sem julgamentos durante o jogo, vai fazer perceber que durante uma certa partida você saca 50% de seus primeiros saques na rede. Isto é um fato. Através desta rápida observação, você acaba descrevendo com precisão que o seu saque não está calibrado naquele dia. E com esta observação se começa a busca pela causa deste problema.

Ao contrário, se o approach desta situação é feito com julgamento, seu saque começa a ser rotulado como “ruim” e isto começa a causar uma interferência no seu jogo pois acarreta em sensaçãoes de raiva, frustração e desânimo.

Se o processo de julgamento fosse limitado a apenas rotular este evento como “ruim” e não tivessemos mais nenhuma reação ou opinião sobre isso, a interferência no jogo e principalmente na performance seria mínima.

Julgamento em excesso resulta em “travar”. E quando nosso corpo começa a “travar”, ele acaba interferindo de maneira negativa na fluidez necessária para realizar movimentos rápidos e precisos. O relaxamento possibilita golpes suaves e aceitos como são, mesmo que sejam causadores de erros.

Portanto, o primeiro passo é visualizar seus golpes como eles são. Eles devem ser visualizados de forma clara e transparente, sem nenhum tipo de julgamento. Assim que esta informação é aceita, o processo de mudança acontece de forma natural e rápida.

Isto foi bem visível em um dos meus atletas que sempre tinha dificuldades em realizar um backhand fluído. O que “destravou” o seu backhand foi quando ele parou de tentar mudar seu backhand. Ao invés disso, ele de fato viu como ele era.

Com a ajuda de um espelho, ele conseguiu visualizar seu movimento e percebeu os pontos onde poderia melhorar. Sem nenhuma análise ou pensamento consciente, ele desenvolveu sua atenção para esta parte específica do seu swing. Portanto apenas com uma visualização clara e sem nenhum julgamento pré-concebido é possível saber de fato como as coisas são.

Não importa qual seja a reclamação de um aluno durante uma aula. O primeiro passo (e o mais benéfico) é incentivá-lo a ver e sentir o que ele está fazendo, ou seja, aumentar sua visão nua e crua do que realmente é.

Eu sigo o mesmo processo quando meus próprios golpes não estão calibrados. Contudo o único jeito de ver como as coisas são é tirar este “óculos de julgamento”. Essa ação abre um lindo processo de desenvolvimento natural surpreendente.

Sem um padrão para o certo e o errado, a mente julgadora cria seus próprios padrões. Enquanto isso, a atenção é sai foco real- o que realmente é- e se centraliza no processo de fazer “a coisa certa”.

Em uma outra ocasião durante um treino feminino, após um primeiro cesto de bolinhas, eu elogiei as minhas jogadoras por terem mandado poucas bolinhas na rede. A partir do segundo cesto, percebi que seus movimentos começaram ficar mais travados.

Perguntei a minhas jogadoras o que elas estavam pensando durante esta segunda parte do drill. Cada uma delas disse que não mandar as bolinhas na rede.  Neste caso, se percebe nitidamente que elas estavam vivendo de acordo com uma expectativa, um padrão de certo ou errado, um padrão que foi colocado diante delas.

O fato de sempre buscar por aprovação e evitar desaprovação é um ato sutil do nosso ego em ver elogios como potenciais críticas! É assim que o ego opera: “Se o técnico está feliz que não mandamos as bolinhas na rede, ele vai ficar irritado se as bolinhas começarem a ficar na rede. Se ele gosta de mim quando estou jogando bem, ele vai me odiar se eu não estiver jogando bem”. Nota-se que o padrão de bom e ruim foi estabelecido no consciente e isto impacta interfere profundamente no foco e performance.

Encerrando julgamento, você deixa de evitar ver as coisas como eles são. Acabando com o senso de julgamento, não se soma nem subtrai os fatos como eles são. As coisas são porque são e aceitando isto, a menta se torna mais calma.

Portanto, a primeira habilidade para se desenvolver no jogo interior é relacionado a observação sem julgamento. Quando desaprendemos a julgar, não precisamos de motivação para mudar nossos hábitos ruins. Só precisamos ser mais atenciosos pois existe um processo de aprendizado e performance mais natural a ser descoberto, sem a interferência de um consciente que só visa a auto-crítica.

No próximo post sobre o lado mental do tênis, vamos abordar como podemos melhorar nossa confiança no Ser 2– o principal responsável pela execução dos golpes e decisões em quadra.

Sobre Carlos Omaki

Carlos Omaki é treinador de tênis há 38 anos. Uma das referências do tênis nacional, dono de duas premiações como Melhor Técnico dascategorias de base do tênis brasileiro, é proprietário da COT tendo equipes na Academia Paulistana de Tênis, Club Athlético Paulistano e Tênis Clube Paulista e com seu staff de treinadores cuida de cerca de 500 atletas na cidade de São Paulo.

Como treinador, participou não só dos começos de carreira de Luisa Stefani, mas também de Bia Haddad Maia, ex-top 60 mundial, e muitos outros.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on google

Search

Post Recentes

COT começa trabalho em Projeto Social
01 March 2021, 18:02
O Lado Mental do Tênis- Inspirado por Timothy Galwell- Parte 1
20 February 2021, 17:33
Fran Jones, suas adaptações e exemplo de superação no tênis
11 February 2021, 16:42
Por que dormimos?
10 February 2021, 01:52
O que faz um jogador ser excelente em duplas?
01 February 2021, 18:20
Balanço final da Rota do Sol 2021
29 January 2021, 01:40
Paulistas levam quatro títulos no Rota do Sol no Recife
22 January 2021, 15:36
Paulista leva título do Maceió Summer, etapa do Circuito Rota do Sol
20 January 2021, 02:19
Paulistas conquistam títulos no Caranguejo Bowl
15 January 2021, 01:27
Circuito Rota do Sol
11 January 2021, 15:35

Categorias

newsletter

× WhatsApp