O Lado Mental do Tênis- Inspirado por Timothy Galwell- Parte 2

O Lado Mental do Tênis- Inspirado por Timothy Galwell- Parte 2

Confiando no Ser 2

Parece inapropriado xingar ou ofender nosso corpo de nomes perojativos.

O Ser 2 – isto é, o corpo físico, incluindo o cérebro, o banco de memória (consciente e inconsciente) e o sistema nervoso – é uma coleção de potenciais altamente sofisticada e competente. Alinhado a ele, existe uma inteligência interior impressionante e o mais interessante é que esta inteligência interior aprende facilmente.

Enquanto o Ser 1 for muito ignorante ou muito orgulhoso para reconhecer as capacidades e habilidades do Ser 2 será muito difícial obter a auto-confiança plena!

O relacionamento entre o Ser 1 e o Ser 2 é parecido com o relacionamento entre pais e filhos.

Alguns pais têm dificuldade em deixar que os filhos façam algo pois acreditam que eles próprios sabem melhor como isso deve ser feito. Mas o pai confiante e carinhoso permite que o filho execute suas próprias ações, até mesmo a ponto de cometer erros porque confia que o filho aprenderá com eles.

Em um jogo de tênis, quanto mais importante for o ponto, mais o Ser 1 irá tentar controlar o golpe e é exatamente neste momento que ocorre a tensão do corpo. Os resultados neste caso são quase sempre frustrantes.

Uma curiosidade é que as crianças aprendem a andar antes mesmo que seus pais as ensinem. E dentro deste contexto, as crianças não só aprendem a andar bem, mas eles também criam a confiança necessária neste processo de aprendizado natural.

As mães observam os esforços das crianças com amor e curiosidade, sem muita interferência. Se no jogo de tênis tivessemo este approach, sem dúvida teriamos muito mais progresso.

Ter uma visão clara do resultado desejado é o método mais poderoso para se comunicar com o Ser 2, especialmente quando se joga uma partida.

O Papel do Ser 1 é ficar parado e observar os resultados de uma maneira isolada.

É importantissimo que não se faça nenhum esforço consciente para manter a raquete em um determinado ângulo. Se após alguns golpes, a raquete não estiver de acordo com a imagem que o Ser 2 visualizou, então se concentre em imaginar o resultado que pretende e deixe a raquete fazer seu trabalho de maneira inconsciente.

Costumo sugerir que, como experiência, o jogador adote o estilo mais diferente possível do que praticava anteriormente.

Também sugiro que desempenhem o papel de um bom jogador, independentemente do estilo que escolheram. Além de ser muito divertido, esse tipo de interpretação pode aumentar muito a visão do jogador. Deixar de ter julgamentos, a arte de criar imagens mentalmente e “deixar acontecer” são três das habilidades básicas envolvidas no Jogo Interior.

Descobrindo a Técnica

Parecia que a mãe sabia exatamente o quanto precisava “mostrar”, quando encorajar e quando deixar de incentivar.

Ela sabia que poderia confiar no instinto da criança, uma vez que fosse “iniciado”.

Talvez o grande erro tenha sido não confiar o suficiente no Ser  2 e confiar demais no Ser 1. É como se quiséssemos pensar que somos mais computador obediente do que um ser humano.

Se nos permitirmos perder o contato com nossa capacidade de sentir nossas ações, por confiar demais nas instruções, podemos comprometer seriamente nosso acesso aos nossos processos naturais de aprendizagem e nosso potencial de desempenho. Em vez disso, se acertarmos a bola confiando nos instintos do Ser 2, reforçamos o caminho neural mais simples para a execução ideal de golpe.

Muitas instruções verbais, vindas de fora ou de dentro, interferem na nossa habilidade de jogar.

Um backhand pode ser executado com um pulso frouxo e garanta controle? Certamente. Mas este mesmo controle, pode ser atingido com um pulso muito firme? Sim, claro que pode.

Portanto, por mais útil que esta instrução possa parecer, você não pode usá-la ao pé da letra. Ao invés disso, você se utiliza destas instruções para orientar sua própria conclusão do grau ideal de rigidez de seu pulso. E isto pode ser feito sempre prestando atenção na sensação do pulso durante o golpe, não necessariamente interpretando a orientação verbal.

Se você pedisse a um grupo de profissionais e teóricos para escrever todos os elementos importantes de um golpe de forehand, a maioria acharia fácil distinguir pelo menos cinquenta, e eles poderiam ter várias categorias para cada um destes elementos. Imagine a dificuldade do tenista em lidar com toda essa complexidade! Por outro lado, compreender o swing e lembrar sua sensação (feeling) é como se lembrar de uma única imagem, deixando tudo mais claro e simples.

Mudança de hábitos

É no processo de mudança de hábitos que a maioria dos jogadores vivenciam a maior dificuldade.

Quando se aprende como mudar um hábito, é relativamente simples saber quais mudar. Depois de aprender a aprender, você só precisa descobrir o que vale a pena de fato aprender.

Por que é tão fácil para uma criança aprender uma língua estrangeira? É mais fácil porque a criança ainda não aprendeu a interferir no seu próprio processo de aprendizado. O Jogo Interior foca na maneira de aprender dentro desta dinâmica “infantil”.

É muito mais difícil quebrar um hábito quando não existe um substituto adequado para ele.

Essa dificuldade geralmente existe quando nos tornamos moralistas em relação ao nosso jogo de tênis. Se um jogador lê em um livro que é errado angular sua raquete, mas não é oferecida uma maneira melhor de manter a bola na quadra, vai precisar de muita força de vontade para manter sua raquete chapada ao mesmo tempo em que efica preocupado com o bola saindo para fora da quadra.De fato, quanto mais tentamos quebrar um hábito, mais difícil fica de quebra-lo.

É um processo doloroso lutar para sair dessa armadilha mental.

No entanto, existe um método natural e mais infantilizado. Uma criança não se esforça descomunalmente para se livrar de seus velhos hábitos; ela simplesmente começa novos! A armadilha pode estar lá, mas você não cai nela porque de fato você se desvia dela.

Se você pensa que é controlado por um mau hábito, sentirá que deve tentar quebrá-lo. Uma criança não precisa quebrar o hábito de engatinhar, porque ela não acha que tem um hábito. Ele simplesmente deixa de faze-lo, pois encontra uma maneira mais fácil de se locomover andando.

 

 

Carlos Omaki Tenis Competitivo- Timothy Galwell- Stan Wawrinka

Aqui vai um resumo do jeito tradicional que costumamos aprender em contraste com o processo de aprendizado ensinado no Jogo Interior.

Etapa 1- Observações sem Julgamento

Onde você quer começar? Qual a parte do seu jogo que exige mais atenção?

Exemplo: Depois de observar e sentir seu saque por cerca de cinco minutos, você pode ter uma boa ideia sobre o elemento específico do golpe que precisa de atenção. “Pergunte” ao seu saque como ele gostaria de ser diferente. Talvez queira um ritmo mais fluido; talvez ele queira mais potência ou uma quantidade maior de giro. Se 90% das bolas estão indo para a rede, provavelmente é bastante óbvio o que precisa ser mudado. Em qualquer caso, deixe-se sentir a mudança necessária e depois observe mais alguns saques.

Etapa 2- Visualize o Resultado Almejado

Faz de conta que o resultado desejado é ter mais potência no saque. A próxima etapa é imaginar e visualizar seu saque com mais potência. Uma maneira de se enxergar isso é visualizar alguem com um saque potente. Não analise demais, simplesmente absorva o que você vê e tente sentir o que seu exemplo sente.

Etapa 3- Confie no Ser 2

Tente sacar de novo, mas sem pensar muito no seu movimento. Tente resistir a qualquer vontade de tentar bater a bola com mais força. Simplesmente deixe seu serviço fazer o movimento. Já tendo em mente que quer mais potência, deixe acontecer. Não é nada mágico, mas apenas deixe seu corpo explorar todas as possibilidade. Independente do resultado, deixe o Ser 1 fora disso!

Etapa 4- Observações de mudanças e resultados sem julgamento

Você está deixando seu serviço fazer todo o movimento:

No momento você está deixando seu serviço fazer todo o movimento, o seu papel é simplesmente observar. Observe o processo sem exercer controle sobre ele. Se você acha que quer ajudar, não o faça. Quanto mais você conseguir confiar no processo natural que está ocorrendo, menos chances terá de  cair nos padrões habituais de interferência de tentar muito, julgar e pensar – e na frustração que inevitavelmente se segue.

Quando você se esforça para acertar a bola corretamente, e dá certo, você obtém um certo tipo de satisfação do ego. Você sente que está no controle, que é o senhor da situação. Mas quando você simplesmente permite que o serviço sirva a si mesmo, não parece que você merece nenhum crédito. Não parece que foi você quem bateu na bola. Você tende a se sentir bem com a capacidade de seu corpo e, possivelmente, até mesmo a ficar surpreso com os resultados, mas o crédito e a sensação de realização pessoal são substituídos por outro tipo de satisfação.

Mas é claro que, no instante em que tento relaxar, o verdadeiro relaxamento desaparece e, em seu lugar, surge um estranho fenômeno chamado “tentar relaxar demais”. O relaxamento acontece apenas quando permitido, não como resultado de “tentar” ou “fazer”

Se você não leu sobre o Ser 1 e Ser 2, clique aqui e conheça melhor este conceito do Jogo Interior do Tênis,

No próximo post sobre o lado mental do tênis, vamos abordar como desenvolvemos nosso poder de concentração. 

Sobre Carlos Omaki

Carlos Omaki é treinador de tênis há 38 anos. Uma das referências do tênis nacional, dono de duas premiações como Melhor Técnico dascategorias de base do tênis brasileiro, é proprietário da COT tendo equipes na Academia Paulistana de Tênis, Club Athlético Paulistano e Tênis Clube Paulista e com seu staff de treinadores cuida de cerca de 500 atletas na cidade de São Paulo.

Como treinador, participou não só dos começos de carreira de Luisa Stefani, mas também de Bia Haddad Maia, ex-top 60 mundial, e muitos outros.

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